Série Indica- Especial Hardcover -2º Episódio!

O segundo episódio da série Indica, já está disponível lá no perfil da autora Lilian Stocco

e a autora que teve o seu trecho lido foi Aline Bassoli, aluna da Hardcover.


Você que ama histórias de amor, não pode perder.

As Estações do Nosso Amor – Aline Bassoli


” Abri a porta de madeira e logo senti o aroma de terra molhada que vinha do singelo jardim interno. Apoiei-me no parapeito e olhei ao redor apenas para admirar as curvas escuras que os morros de Sintra faziam em contraste com o céu claro iluminado pela Lua.

— Sem sono? – disse uma voz quase sussurrada, fazendo com que meu corpo inteiro se arrepiasse.

— Pois é. – respondi encarando um Josh sem camisa e sem disfarce, com um sorriso maroto nos lábios. – Você também?

— Aham. – ele respondeu observando-me de cima a baixo. Agradeci internamente por estar usando uma camisola mais decente e não as camisetas velhas e rasgadas que eu adorava. – Está uma linda noite, né? – ele disse se aproximando de mim e foi quando eu percebi que não havia uma divisória entre as sacadas.

— Esplêndida. – eu respondi num sussurro.

Josh parou a centímetros de mim e voltou seu olhar para cima.

— Fazia muito tempo que eu não conseguia observar um céu tão lindo assim. – ele disse ao meu lado.

— Sim… Mas hoje não está uma noite boa para se apreciar o céu, e sim a Lua.

— Por que diz isso? – ele me encarou curioso.

— O brilho dela ofusca a beleza das estrelas. – continuou me observando. – A noite precisa estar sem luar para uma boa observação, só assim para enxergarmos bem as estrelas e até algumas galáxias. – sorri para ele. – Quando está assim, majestosa no céu, todas as atenções estão voltadas pra ela.

— Nem todas. – ele disse e me olhou profundamente.

Senti minhas bochechas corarem e fiquei sem saber o que fazer. Meu desejo era de me entregar àquele turbilhão de sensações que corriam em minhas veias, mas eu não tive coragem. Então eu quebrei o contato visual e voltei a olhar para cima.

Pelo canto do olho percebi que Josh deu um sorriso decepcionado e logo ele também tinha voltado a fitar a imensidão negra sobre nós. Ficamos em silêncio por um tempo até que um arco incandescente riscou o céu.

— Você viu aquilo? – ele quebrou o silêncio empolgado.

— Sim, uma estrela cadente. Faça um pedido!

Josh sorriu com minha “ordem”, mas calou-se e se concentrou em seus pensamentos. Pedi à estrela que aquele sonho todo virasse realidade, mesmo não acreditando realmente na lenda. Josh esboçou uma pergunta, mas eu logo o interrompi.

— Ninguém pode ficar sabendo do seu pedido, senão ele não se realiza.

— Sério?

— Bom, é o que diz a lenda. – eu respondi e voltei a olhar o céu.

Conforme o tempo passava, a visão se acostumava à situação de claridade e era cada vez mais fácil ver estrelas despercebidas minutos antes. Girei a cabeça para observar mais partes do céu, até que senti uma ligeira tontura e meus joelhos falharam por um instante. Num segundo parecia que eu tinha perdido o chão e no seguinte eu estava aninhada nos braços protetores do Josh.

Elevei meu rosto e nossos olhos se encontraram novamente. O brilho que eu vi fez com que eu entendesse todo o sentimento ali represado: Josh me amava. Indo contra todas as possibilidades, regras e circunstâncias, eu li naquele belo par de esmeraldas que ele me amava.

E eu só pude constatar, quando meu coração falhou uma batida, que eu também estava realmente apaixonada por ele. Perdidamente apaixonada.

Instintivamente nossos rostos foram se aproximando e eu sabia que seguíamos para nosso primeiro beijo quando fomos interrompidos pelo celular que começou a tocar. Eu estava disposta a ignorar tudo, menos o dono daquele toque.

Por mais que o momento com o Josh estivesse completamente perfeito, eu tinha que atender aquela ligação. Não sei como tive forças para me libertar daqueles braços que eu tanto desejava e segui para dentro do quarto.

A chamada não durou muito, na verdade, e logo em seguida voltei para a varanda, na inútil esperança de ainda encontrar o Josh por lá, mas ele não estava e a porta do seu quarto estava fechada.

Caminhei sorrateiramente até a porta da sua varanda, ensaiei duas ou três vezes uma batida, mas como não havia nenhum barulho vindo de dentro do quarto, acabei desistindo e voltei cabisbaixa para meu quarto, largando-me na cama com uma mescla indecifrável de sentimentos.

O dia chegou com um ar melancólico. Ao contrário do que havia acontecido durante toda a nossa viagem, aquela manhã começou nublada e mais fria que as outras. A noite mal dormida, recheada de pesadelos e períodos de insônia também não ajudava muito na coragem para levantar.

Mas aí me veio à mente que era meu último dia com o Josh e eu não podia perder nem um segundo sequer da sua companhia, mesmo depois da cena da noite anterior. Não sabia como seria nosso reencontro, qual tom teria, mas mesmo assim era minha chance de me desculpar.

Levantei rapidamente da cama depois desses pensamentos, passei uma água no corpo e organizei minha bagagem. Segui para a porta e assim que girei a maçaneta, topei com um Josh de feições cansadas, com o punho erguido, prestes a bater.

Passamos por aquele momento estranho de constrangimento e seguimos em silêncio para o restaurante.

Aquela situação era horrível, nem parecíamos as mesmas pessoas dos dias anteriores; na verdade, parecia que havia um precipício entre nós. Ainda em silêncio nós nos sentamos à mesa para iniciar a refeição.

— Ok, isso está péssimo. – eu disse num desabafo. – Desculpe ter entrado subitamente ontem, Josh, mas eu realmente tinha que atender aquela ligação.

— Nanda… eu… – ele começou, mas eu o interrompi.

— Era o Alex naquela ligação. – eu disse e ele prestou toda atenção ao meu relato.

Depois de explicar a ele toda a conversa, percebi que finalmente o clima pesado entre nós havia desaparecido. Ele estava dizendo que estava feliz pela situação ter se esclarecido quando foi interrompido pela simpática senhora da noite anterior.

— Minha querida, aqui está mais um detalhe sobre a visita ao menir dos namorados.

— Ah, obrigada. – agradeci sob os curiosos olhos do Josh.

— O que eu perdi? – perguntou assim que a senhora nos deixou.

Expliquei que havia esquecido meu celular na mesa após o jantar e, quando voltei para busca-lo, dona Maria e eu ficamos conversando um pouco. Ela me disse que havia mais um ponto turístico aqui em Portugal para conhecermos e que era no nosso caminho: Rocha dos Namorados.

— Hum. – ele murmurou. – Rocha dos Namorados?

— Pois é. Ela… Bem… – eu meio que engasguei.  – …ela disse que é um lugar lindo. – Josh me olhou mais intensamente e tive certeza de que ele não engoliu aquela resposta.

— Bom, já que é caminho, não vejo motivo para não passarmos por lá. – ele disse.

Era muito óbvio que ambos estávamos cautelosos com as palavras naquele dia. Logo depois do café pegamos nossas coisas e seguimos para Évora.

Contrariando toda a nossa afinidade, quase não conversamos durante a viagem, que durou cerca de duas horas. Aquilo estava me incomodando muito, mas Josh parecia perdido demais em seus pensamentos, como se ainda estivesse processando tudo o que acontecia.

Em Évora pegamos outro ônibus, com destino a Reguengos de Monsaraz, a cidade onde ficava a tal rocha. Essa viagem foi um pouco mais curta e cerca de uma hora depois nós finalmente chegamos ao tal lugar.

Ambos caminhamos olhando atentamente para o tal monumento e dava para perceber que não era tudo aquilo. Já tínhamos passado por tantos lugares muito mais interessantes que aquela rocha foi muito decepcionante.

Em dado momento encontrei um plaquinha contando a lenda do menir e, claro, comecei a rir.

— Ok, é injusto só você saber a piada. – ele disse fingindo aborrecimento.

— Bobo. É só a lenda da rocha. – e traduzi para ele. – Diz aqui que se uma moça noiva jogar uma pedra e conseguir fazer com que ela fique no topo do menir, o casamento se realizará em menos de um ano.

Claro que Josh me instigou a jogar uma pedrinha, mas eu tinha acabado de ficar solteira, então não havia sentido fazer aquela “consulta”, mas ele insistiu tanto que acabei cedendo… com a condição de que ele também jogasse uma pedra.

— Mas a lenda não diz “moças”? – ele me questionou fingindo espanto.

— E não diz “somente as noivas”? – eu retruquei com um sorriso divertido.

— Ok, ok. – ele cedeu. – Vamos juntos então. – e passou a procurar por duas pedras.

Ele parecia tão compenetrado procurando pelas pedras perfeitas que não contive mais um largo sorriso. Enquanto ele se empenhava em sua busca, peguei duas pedrinhas que estavam bem ao meu lado e esperei.

Quando ele finalmente se cansou de procurar, mostrei as que tinha pego e nos posicionamos ao lado da rocha.

— No três? – perguntou.

— Humm… Não sei se vou conseguir, isso é meio alto demais. – e ambos olhamos atentamente para a rocha.

— Sem desculpas, Nanda. – me desafiou. – No três.

Fizemos a contagem e arremessamos as pedrinhas ao mesmo tempo. Ouvimos o quicar das pedras no topo da rocha e elas não caíram.

— Ahá! Parece que nós nos casaremos em menos de um ano, Nanda. – ele disse me encarando risonho. “

Até o próximo post!

Série Indica- Especial Hardcover

O primeiro episódio da Série Indica já saiu lá no Instagram da autora Lilian Stocco!

O episódio foi marcado pela leitura de um trecho do conto “Horror em minhas costas”, escrito pela autora Taís Ortolan,

e faz parte da antologia da Amélie Editorial “23 Formas de Morrer”.

Você pode conferir o trecho escrito aqui no nosso blog, e a live completa nos perfis @Lstoccoautora e @vivendodeinventar lá no Instagram. Siga também a @leia.taisortolan

TRECHO DO CONTO: “Horror Em Minhas Costas

Enquanto trabalhava naquela noite, tão comum quanto qualquer outra, ele sentiu a dor nas costas especialmente incômoda, sem encontrar uma posição de alívio. Ele se revirava na cadeira pequena da portaria, procurava locais de apoio para os braços e pernas. Tentou até dobrar seu casaco e colocar na lombar, mas nada mudou. 

Fran suspirou. Os médicos atribuíam tudo à má postura e à tensão muscular, adquirida pelo famigerado transtorno do estresse pós-traumático. Tudo bobagem, é o que Fran pensava. Só os ricos têm tempo de ter esse tipo de doença da mente. Uma médica, a mais baixinha, que ele aprendera a simpatizar, indicou a ele que fizesse fisioterapia. Ele frequentara por um tempo, mas não sentia a menor diferença e achava tudo muito esquisito. E a dor só aumentava com o passar dos dias, como se a própria força da gravidade estivesse puxando-o para o chão.

Cansado de lidar com a cadeira e a falta de conforto, Fran se levantou e saiu para esticar as pernas, agradecendo pela liberdade, uma das vantagens de se trabalhar em um prédio comercial durante a madrugada. Tentou se alongar pensando no que ele daria para que a dor passasse. Quase tudo, provavelmente.

  Fran andou até o banheiro vagarosamente, sentindo um cansaço que não condizia com a sua idade. Ele não era religioso, mas se encontrou esperando que os movimentos fizessem algum tipo de milagre e proporcionassem pelo menos um pequeno alívio.

Assim que entrou, olhou de relance para o espelho, e isso foi o suficiente para que visse o horror em suas costas. Durou apenas um segundo, mas viu tudo o que precisava para que começasse a suar frio e seu sangue gelasse. O horror. A forma humana empoleirada em seus ombros. Ele se jogou no chão, sacudindo e debatendo cada milímetro do seu corpo, seus gritos de agonia ecoando pelos azulejos do banheiro vazio. Não sentiu nada sair de cima de si, mas, ao mesmo tempo, não encontrou nada quando tateou seus ombros.             

Caído no chão, trêmulo, ele buscou o topo de sua cabeça. Arrastou-se para a parede mais próxima e forçou as costas ali para garantir que era tudo uma loucura sádica de sua mente. Olhou em volta, buscando algo que não queria realmente encontrar. Não havia sinal de nada, além dele mesmo. 

Não perca o próximo episódio da Série Indica- Especial Hardcover, neste sábado,  14/11/20. Não deixe de conhecer as histórias incríveis que nasceram na Hardcover!